terça-feira, dezembro 13, 2011

loucura loucura loucura

 
   Descrever é diminuir, modificar, por fim. O próprio "eu te amo" quando dito já não ama, só traduz. Descrições corrompem, e as palavras são arbitrárias.
    Quando ela me olhou naquele sol, com aquele sorriso, protegida por aquele vento, quase a amei em segredo.
    Mas chega esse tal de Peirce e me diz que ela nunca me olhou naquele sol, com nenhum sorriso, me diz que não tinha nenhum vento. E acuado eu digo que não amei ninguém. É preciso proteger-se, e a loucura é tão amiga que nos convence de vez em quando!
    Mas o que eu digo agora, meus colegas? Disseram-me que essas coisas só se sentem, e que até os atos são outros atos de outras palavras até. Com as mãos para o auto, quase em um hijack americano, eu digo: eu sinto e penso, logo existo, ou logo mais codifico.
    Aí vem aquele Pessoa e me diminui, me modifica, bota um fim nessa conversa louca, me corrompe, me descreve e me traduz: "a parte que em mim sente está pensando."

E O CALOR VEM DESUMANO

 
   De repente aquela poeira invisível. Fica tudo meio branco, e os pés já não sabem bem por onde pisam. A barriga borbulha qualquer coisa que rima com: "Que é isso, camarada? Será que é dessa vez que vamos juntos comer capim pela raiz?"
   E eu digo, amigavelmente: "Deixa disso, é o verão, e os girassóis do fim do ano."

segunda-feira, dezembro 12, 2011

É DE AMOR QUE O MUNDO VIVE


    Não se engane, amigo, é de amor que o mundo vive. Sem amor à existência, não há vida. (Sim, é preciso amar para estar vivo, e muito mais amor para que se viva, de fato).
    Proponho, pois, um exercício de imaginação: suponhamos que todos os homens e mulheres se odiassem e odiassem a si mesmos. Não haveria entendimento, conversa, ou tempo para o que quer que seja. E então, pouco a pouco, não haveria ser vivo algum. Se não há amor entre eu e o outro, o que me impediria de, em um ataque de raiva ou súbita loucura, acabar logo de vez com esse ser que me olhou torto na fila do pão?
     E, então, sem amor, desapareceriam as filas, os padeiros, os pães, as placas, os sinais, os carros, desapareceríamos. 
     O mundo é mesmo relativo, amigo. O nojo para mim, é a delícia de outras bocas. O meu sol é a lua cheia de um chinês, o meu miojo é uma refeição inteira para quem não tem nada. Mas deixemos a poesia de lado, agora. 
     Nesse mundo de relativos, se faz necessário às vezes estigmatizar, diminuir, exaltar. O amor, caso se fale aos quatro ventos, ganha a conotação de afeto entre dois amantes. Sim, há amor entre duas pessoas que se relacionem. E há amor também nos bom dias, nas mãos que se apertam em um cumprimento, nas filas, nas aulas, nas desculpas, ou nos suspiros de contenção de raiva.
    Digo e repito, é de amor e de paz que vive o homem. É de amor que vivemos, e é de amor que o mundo vive.
    

domingo, dezembro 11, 2011

PRÓPRIAS CONSTELAÇÕES


     O tempo é mesmo o senhor do mundo, carrega e traz com o mesmo gosto. Não há nada perecível que conheça sua força, não existe nada de corruptível que não ame suas promessas.
     Um ano apenas. É o mesmo quarto. Mobília mesma, mesmos CDs, mesmos livros. Só o violão tem uma corda a menos.
     A preguiça está igual, ainda não há guarda-roupa. Só a janela encortinou-se. E o mesmo velho sol...
     A noite ainda é cheia de luz, as mesmas superstições. And the same old fears.   
     Só o menino está diferente. Um pouco mais de cabelo, um pouco menos nas laterais da testa. Algumas tantas constelações desfeitas, outras um pouco novas, um pouco firmes. E as mesmas estrelas sós, com as quais ele constrói todas as outras.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

And if I lost the map, if I lost It all


    Quando eu liguei o rádio hoje, eu ouvi você dizendo oi. Melodia alegre, eu disse. When you are tired of racing, and you find you never left the start. Aí você ensaiou alguma coisa para dizer com os olhos. Mas, não sei, alguma coisa travou. Então me deu uns acordes com as mãos.
     Nós ficamos nos olhando. Ouvido com ouvido - de plástico, não se sabe o qual. E eu, na janela, ouvi você dizer que as coisas podiam ter sido outras, tantas, poucas, drásticas e lindas; em seus tempos e situações. Não fui eu que falei. 
     Mas então eu disse, na verdade eu tentei. By the way, huh? Proteção de faces nunca foi dos meus dons. Mas eram ouvidos agora, não eram? Eu te desejei mais uma vez tudo o que há de bom, com aquela dorzinha no peito de quem diz tchau pela centésima vez e o ônibus não chega. 
     Aí então tocou funk.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

!


    Ônibus, as seis da manhã e da tarde. Casa pré-fabricada, um dia apenas. A lesão e a moleta. O jorro. Rispidez,  memória, esquecimento. Inquietação, mala pronta, uma vida inteira. Fumaça, escape, contra-mão. 115 visualizações. 18 anos e meio. Fotografia revelada.
     Suor, vermelho, azul e preto. Medo. Caixa vazia, mão no bolso e no peito. Um filme antigo, cheio de flashes sucessivos subliminares. Aposto, travessão e lágrima. Fala de gringo traduzida. Cultura nova, encaixotada. Caixa. Papelão, chuva, grosseria de gota.
     Pisca-pisca de cílio. Involuntariedade, cochilo. Pré. Pós. Para!
     Nem tempo, nem dinheiro. Ou isto, ou aquilo, ou tudo junto, em salada sem tempero.
     Sou breve.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

O SISO E TODOS OS OLHOS

 
    Tem olhos bonitos, de modo que, sem espelhos, não tem beleza alguma. Os olhos não se olham, nem quando piscam. (E, meu Deus, como dói o siso!)
    Os outros olhos o vêem como alguém destemido, uma pessoa de decisão, até certo ponto sisuda. O que lhe dá uma pluralidade um tanto singular: é verdade, os próprios olhos, quando olham, enxergam-se nisso.
    Então eles piscam. Então não há planos - em um parecer assim disfarçado.
    E assim parece fugir das frustrações. (Meu Deus, como tic-taca o cérebro!)
    Logo os olhos se abrem de novo em uma fração incontável de tempo. Enxerga-se azul na água, verde de árvore grande, brilho amarelo de sol. (E o siso ainda dói, o cérebro tic-taca. Faz-se uns planos, arquiteta-se um esconderijo para a esperança).

quinta-feira, dezembro 01, 2011

GRAVIDADE


   Te conhecer, te explorar. E te contar qual o teu melhor ângulo.
   Tiro uma foto ou duas, te borrifo de sais de prata. Você me conta aquelas bobagens, e ri de uma forma engraçada, apertando um pouco o olho esquerdo.
   E então sorri para mim mais um pouco; me faz de bobagem por um tempo, depois me cobre de importância. E eu ando lento, aos pulos, sem me importar com a gravidade dos fatos.
   Me faz descobrir!
   Menina da cidade, qual é tua outra face?

terça-feira, novembro 29, 2011

Respirar, navegar: é coisíssima igual


  O mundo é bão, Sebastião! E a vida é linda, menina!
  Desculpem vocês: às vezes eu fico meio chato, fico meio mole. Mas aí eu escuto uma música bonita, corro corro de um assalto e, pimpa. Pronto!
  O verde fica mais verde, a árvore cria uns galhos, umas raízes, e a gente faz um filme. Aí balança um pouco, como uns bebês crescidos, num balanço de parque.
  Se te caem os livros, empilhe-os. Faça uma muralha e brinque de guerra de papeis higiênicos - limpos.
  Se te caem os dias, faça um mês ou dois; de puro riso.
  Em quais trincheiras te escondes, menina? A vida é linda!

domingo, novembro 27, 2011

Querida, está tudo tão azul!


Imprevisibilidade, precipitação.
músculos, rígidos, doem.
De sono acordado estou eu.
Subo escadas, pulo cercas;
carneiros se perdem...

Imprevisibilidade, precipitação.
É tudo tão lindo:
É tranquila a incerteza;
e o depois que vem de ontem...
e o não sei dito em já sabia.

Eu vejo os meus erros.
Já conheço os meus passos.

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sábado, novembro 26, 2011

CONVERSA COM O QUINTANA


— Me explica, havia um ponto de luz em algum lugar...
— É que "todo ponto de vista é a vista de um ponto".
— Me explica, que luz é essa que está em todo canto, em todo ponto de sorriso?
— O que você acha que é? "As definições apenas definem os definidores".
— As coisas são o que são: a luz é luz, eu sou eu. Ou será que não?
— "Nada neste muito é, por si, feio".
— Agora você me agride! Que é isso, camarada?
— Não ainda, mas "quem sabe um dia?"
— Ai meu Deus!
— "Em meio ao turbilhão do mundo, o poeta reza sem fé"
— E agora você me agride, depois me elogia, me chama de poeta? Só de digo uma coisa: se decida, que o mundo é grande e o tempo é curto.
— Que nada, eu sigo a máxima: "Se te contradisseste e acusam-te... sorri. Pois nada houve, em realidade. Teu pensamento é que chegou, por si, ao outro polo da verdade."
— Velhinho louco, você, hein? Mas tu é gente fina!

domingo, novembro 20, 2011

menor menor menor menor menor menor

 
  Procuro o vazio para me sentir grande, esvazio-me. Procuro a completude, sinto-me então pequeno. E de pequeno, sinto-me grande, sinto-me muitos, sinto-me.
   Só quero lembrar de me querer pequeno - a memória fraqueja e os joelhos doem.
   Doem-me os joelhos e eu me esqueço que dor é pequenez. Mas só me doem os joelhos, na mente eu sigo tranquilo. Então dói-me não doer. De esquecer esqueço-me: quando vi já fui sem vale, sem volante, sem violão.
  Escrevo frases curtas, tão longas quanto os meus tempos de lembrança e esquecimento.
   Encurto-me. E sou pequeno de novo.
   E sou-me só, mas sou tantos, conectados todos por fios de vida. Sou. Com vários pontos, que muito bem poderiam ser vírgulas. E os fios de outro - ora ao sol, ora à minha sombra - fazem-se mais vivos, então fazem-me enorme, depois apenas me fazem.


sexta-feira, novembro 18, 2011

MOÇA

 
   De longe ela vinha com uma calma angelical. Passos curtos, andar desconsertado.
   De longe e em um enquadramento perfeito: de um lado faixas, muitas faixas, de aprovações e propagandas; do outro carros, muitos carros, de pressa e movimento.
   A calçada se desenhava sob os seus pés. E onde as duas linhas de paralelepípedos quase se tocavam estava ela - quase parada, quase em movimento. A cor do dia parecia não importar, ao barulho dos carros também era indiferente. Apenas as faixas brancas enfileiradas nas paredes detinham os seus olhos baixos, meio tristes.
   Seus pensamentos não pude ouvir, suas palavras não foram ditas. Apenas os olhos falavam às faixas. Apenas aos olhos ouvi; muito como se não quisesse, meio de passagem, meio querendo sem querer.
   E os olhos, de um brilho sagrado, alegravam-se e frustravam-se simultaneamente. Diziam entre si e para as faixas: "por que não eu?","por que não agora?", "parabéns você!", "parabéns agora!"
   E nesta indecisão dos olhos, os lábios me viram e disseram bom dia, depois disseram sorriso, depois se foram; e os dois andantes deram as costas. Só então eu vi a cor do dia, a cor dos carros, a brancura muda das faixas (nos muros e nas músicas-de-bolso).
    É muito mais fácil observar as coisas que não andam de auréola e chinelos. 
   

quinta-feira, novembro 17, 2011

Porque ela é it

 
    Que você arquitete bem as suas conquistas e construa com base firme todos os seus sonhos - mesmo que,  por lei, eles só tenham dois andares.
    Vá sempre mais além, até o infinito se for preciso, para manter a calma e a felicidade (esta última só se conquista com prudência e entendimento); que o seu dia-a-dia tenha mais sal e açúcar.
    E não tenha medo de, quando precisar de um Alento, trocar a ordem das velhas árvores (elas não alteram os passarinhos que sabem voar alto).
    Fico aqui pensando que às vezes o tempo passa tão rápido, que é igual a um G-6 (Isso é bom para quem tem pressa). Que você tenha pressa de ser feliz e de lutar pelo que é certo e pelo que é seu por direito. E que você sempre tenha a certeza de que vai existir alguém que torce por você, e de que essa torcida é maior que qualquer fronteira, de qualquer estado ou região.
    A miliano eu queria te dizer isso: Someone Like You não existe. Você é única para mim e para todos que te conhecem. Não tem Paulo Mendes da Rocha que chegue no cheiro do rastro do seu cadarço. 
    Feliz aniversário, fran! Do seu primo que te ama muito.
     

domingo, novembro 13, 2011

AI QUE SAUDADE DO CÉU


  Olho-me no espelho e as bochechas secas de insônia me dizem feiuras impronunciáveis.
  Abro a janela, olho-me então no dia. E o sol do leste faz o verde mais verde, o canto mais canto, e a vida mais música.
  Não há espelho, bochechas ou feiura; só há céu, sol, sal e mar. E o velho sorriso que vem de brinde...

IS IT A DATE?


  Me diz o que é o fim do mundo e eu te digo o que é a vontade.
  E então você me diz que o fim do mundo é um lampejo. Que os olhos correm, mas que não dá tempo; e que a vida se vai assim como se fez.
  E eu digo que dá vontade de finalizar tudo. De em um lampejo ter-se tempo de ver os teus e os meus olhos, e que a vida se cria, assim como sorri todo dia para os que sabem aproveitar.

terça-feira, novembro 08, 2011

ÁGUAS-VIVAS DE OUTUBRO

   
   Apesar dos sorrisos, dos olhares retos e dos pensamentos tortos, eles estavam sós. Não havia completude, abraçavam-se os vazios. E o sol que entrava pela janela enquanto ela desenhava linhas curvas na parede próxima ao seu rosto.
   O sol entrava e brilhavam pequenos flocos de poeira. Se eram células livres dos corpos, ou águas-vivas que boiavam no vento de suor e silêncio, pouco importava para os dois.
   Ele olhava as sombras das nuvens na parede oposta, com uma calma de quem padece. Uma mão na cintura dela e outra no próprio peito. Podiam-se fazer melodias de assovio: o sol entrava pintando a parede de amarelo. Estavam amarelos os dentes, os corpos, a cama de solteiro. Amarelo estava o dia. 
    E as almas sós pintavam-se de carinho. De repente olhares tortos, pensamentos retos, sorrisos tímidos, cama grande demais.

sábado, novembro 05, 2011

Uma árvore, talvez pequena

 
   Quero conhecer os meus frutos para vir a conhecer a minha árvore. Será que dou frutos doentes que parecem doces? Ou será que são os meus frutos bons que parecem amargos demais? Será que são relativas também as papilas gustativas?
   Se o parecer é um perecer, o que é, enfim? E se o perecer é um frutificar, como frutificar e permanecer? Quem sabe meus frutos tantos sejam mesmo muitos - doces e amargos, doentes ou maduros. Sinto-me mais como a formiga do que como a árvore que sou. E eu me arrasto, engatinhando com seis pernas, sob um tronco onde meus olhos de inseto não vêem onde termina nem por onde começa. E como formiga eu carrego as folhas, meço as palavras, em um contentar-se mais que contente (há uma felicidade grande em fazer o que é preciso, enquanto se nutre a seiva).
   E engatinhar, nutrir e preparar enquanto é possível. É passivo mesmo o ser do tempo.

quinta-feira, novembro 03, 2011

NÃO ME APAREÇAS, MORENA!

 
   Te encontrei lendo um livro de filosofia. Tu tava lá bem escrita, bem na linha, bem cheia de vírgulas, como sempre, claro. Tão você que eu li mais depressa, como quando eu faço se o assunto é de interesse. Tu tava lá e eu aqui, como sempre. Quase desfiz minhas juras, quase refiz elas todas. Foi quase!
   Não me aparece mais assim, sério! 
   Na verdade fui eu que te procurei, como sempre. Mas mesmo assim, não me apareça. Vê se foge, pula o parágrafo, que é difícil pular a vista.
   Deus sabe o quanto eu te quis, morena. Vai ver foi Ele que não queria! Ou vai ver foi você, mas tanto faz agora. 
   E agora quem sabe, quem soube, quem não sei.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Jaculátoria do meio-dia e da meia-vida

  
  Tenho ido e vindo sempre. E cada vez volto com mais uma ruga. Meu senhor Deus, que  eu entenda o que é a Tua vontade, e que de cada ruga do meu espírito brilhe um reflexo do Teu amor. Que eu seja Teu instrumento diário. Que eu seja vigilante dormindo ou acordado, de noite ou de dia, em todo e qualquer lugar. 
  Pai, me faz experimentar toda a sua grandeza. Faz com que eu enxergue a Tua vontade mesmo no que me custa sofrimento. Que eu enxergue a Tua felicidade em toda ferida. 
  Olha-me com bondade mesmo quando eu parto, mesmo quando eu Te esqueço, mesmo quando faço sofrer o irmão, que também és Tu. Perdoa todo o sofrimento que Te causo. Perdoa toda fraqueza, toda lágrima e todo sorriso.
  Eterno Pai, enche-me de Teu espírito! Que meus olhos Te comuniquem e me sorriso Te anuncie. Quero ser tão santo quanto Tu fostes enquanto carne. Dá-me a graça de imitar-Te. Que eu queira o que Tu queres sorrindo. E sorrindo, que eu queira o que queres Tu.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Cantiguinha de Domingo



  Não escrevo mais uma linha só de bom agrado.
  Talvez foi a tristeza que eu perdi,
  Talvez foi a tristeza que se perdeu.

  Talvez eu faça uma cena
  Eu faça um samba
  Eu fale um poema;

  E eu rime e eu cante
  Hoje mais que antes.
  Sem saudade, sem vontade, sem problema.

  Talvez nem ligue.

  (E esse meu dom de terminar como se não tivesse terminado, como se já tivesse falado das flores e das cortinas que se abrem)

  Abre as cortinas pra mim,
  Que a andorinha está passando
  Que o dia não costuma esperar.

  Abre as cortinas e as coxias pra mim,
  Que Deus gosta de pregar peças
  Que o que é de bem não se esconde
  E não tem palco nem palhaço que não conte.

  Estou talvez a ouvir uma pitanga, enquanto a vida passa junto à nuvem. Pensando que o tempo é mesmo bom e o que o sol é um solo de xilofone. E o corpo e a alma seguem um estatuto da felicidade que ninguém disse. Minha vontade se conta e se distribui com o vento. O mesmo que me leva, que me rouba, que me deixa sem chapéu.


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quinta-feira, outubro 27, 2011

É COR QUE VEM DE DENTRO


Finalmente chuva. Os pés pisam o barro vermelho lamacento. Havia rachaduras no chão; ainda há rachaduras nos pés.

Os pés pisam e os olhos choram; quase tanto quanto as nuvens. Eles não parecem filhos deste chão. Mas quem parece, afinal?

Os pés pisam, os olhos choram e as mãos juntas rezam. Agradecem.Os lábios se erguem e os dentes saem. São amarelos os dentes, mas quem é branco, afinal?

Os pés pisam, param; os joelhos se dobram. De repente é como uma sinfonia ou uma cena decisiva de cinema. Há luzes de diversas cores, há um ritmo nordestino com marcações de pulso, há um coração de pulso forte e acelerado. As gotas grossas caem. E até quem está seco, até que está longe, até quem está surdo ouve um imenso obrigado tão grande quanto a chuva e quanto os olhos.
 
E os pés pausados que andam, de onde vêm? Agora para onde vão? Os pés pausados ficam. E faz-se o rancho, faz-se a vida.

domingo, outubro 23, 2011

DESPOLIDEZ

  
  Adoro neologismos. Raramente sou coeso - nos textos, nas frases, nos pensamentos. Raramente sou coeso nas ações. A vontade que dá de vez em quando é de jogar o que quer que esteja para o alto e gritar PORRA. Mas isso é minha vontade, e só minha (depois poderemos entrar nesse assunto Vontade). Meu vocabulário é escasso, inclusive o de palavrões. Não sou muito chegado a desafios, de modo que novidades complexas me botam medo. Tenho receio a novidade. Sou estudante de jornalismo.
  Fingo abandonar planos facilmente. Às vezes fingo fingir. Às vezes digo, fingindo, o que é verdade, oras! Sempre às vezes.
   Sempre às vezes? Pqp! Fico preso a frases de efeito.
   Honestidade é caso raro, as pessoas gostam de faits divers. Elas gostam é do estrago. Sou pessimista, às vezes. Mesmo. Mas amo as pessoas - quando eu digo não acreditam. É que eu vejo em todas infinitas possibilidades de entendimento. Se as pessoas se propusessem a entender o que as cercam, de entender a elas mesmas, de entender...
    Sou otimista, às vezes, mas deixo isso pro final. E tantas outras coisas que não se dizem por preguiça ou auto-polimento intrínseco e interiorizado. Tenho que manter os ótimos gráficos de visualizações do blog.
     Tá, isso é mentira. Não despolidez.
     
     
   

quinta-feira, outubro 20, 2011

FUSÃO PARCIAL DOS EUS



Só queria saber com quantas mãos se faz uma jangada...

Os indivíduos nascem de outros dois indivíduos. Mas dependendo da amplitude da visão, e da boa vontade de se olhar as árvores genealógicas, perceber-se-á que os indivíduos nascem de, pelo menos, outros 14 - contando com pais, avós e bisavós. Estes, por sua vez, nasceram de um número infinito de outros seres... é quase confundível com os algarismos do tempo.

Entretanto, os indivíduos crescem e se comportam como indivíduos em unidade solitária. De próprios umbigos o mundo está tão repleto que se julga impossível a existência de umbigos todos saciados, de modo que a cultura do ter é comum mesmo entro os umbigos que só têm fome - de comida, arte ou felicidade.

E antes que se fale em cultura do ser, é preciso voltar a falar em cultura do doar. Doar que está em doar-se. Compartilhar que está em receber, em moedas diversas e inomináveis.

Com quantas mãos se faz uma jangada?

Com duas mãos de um só umbigo, faz-se uma. Mas com uma só mão que serve a umbigos tantos e a indivíduos tortos ou direitos, faz-se o mar, uma jangada, e todos os peixes.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Para os que Pensam que no Brasil Tudo Acaba em Samba


  "Parte sem todo, ainda é parte só. E embora pareçam completas, partes são partes, apenas.

   Não sei porque partes, morena, carregando o seu lado da mentira, se poderíamos ser dois polos da mesma verdade. E sendo dois em um, seríamos três ou seis bilhões, quem sabe.

   A parte só é parte quando assim se percebe. E a promoção só é verdadeira quando, em partes, é mesmo um só tudo - que é tudo e todo, de mãos dadas e erguidas."
 
   E assim que terminei de ler eu disse: "Gostou do meu textículo?". E ela gritou: "O QUÊ?", me estapeou e foi-se embora, tapeando que não tinha entendido.
 
   Depois me ligou umas sete vezes, pediu-me umas mil desculpas, e falou duas milhares de vezes que "Esse negócio de bancar a difícil estava muito fora de moda". Então me olhou de baixo para cima, jogou mais uma vez os cabelos para trás e disse: "Lê de novo para mim que eu aceito". E quando eu perguntei "O quê?", ela disse juntando as sobrancelhas: "Mas não tava falando em sexo?"
 
    (Esses tristes trópicos andam mesmo muito quentes!)

quinta-feira, outubro 06, 2011

VERBAL



E eu pensava que ela queria, eu queria e ela pensava, eu dizia e ela sorria.
E eu queria que ela quisesse, eu pensava e ela só pensava, eu sorria e ela dizia.
Mas ela pensava que eu não queria. Enquanto nós dois nos queríamos, só pensávamos, não nos dizíamos.
E eu sorria, só sorria.
Mas eu quis e eu disse, e ela já não mais queria. Na verdade ela nem disse – eu pensei que ela tinha dito porque não sorria.
Então eu não pensei, não quis, não disse mais e não sorri. E ela, pelo jeito, fez o mesmo!
Hoje ela pensa, quer, diz e sorri para outra pessoa que também pensa, quer, diz e sorri para ela. E os dois se conectam por qualquer outro verbo.
Enquanto eu deixei de pensar nisso, porque, se quer saber, eu não quero mais! Para ser sincero é isso o que eu digo - mas pelo menos sobrou o sorriso.

terça-feira, setembro 27, 2011

Conversa batida e de esperança na vida



   
   - Algumas pessoas gostam de correr riscos, outras preferem ficar no lado seguro. E o que é seguro senão tudo e o que é seguro senão nada?
   - Ê, rapaz! Deixa de história que o mundo é bonito, e não importa o lado! Quando se ama tudo no mundo, ama-se a si mesmo e a quem quer que seja com uma felicidade a mais. Não importa se faz chuva ou se faz sol, se é recíproco ou coisa de besta. Mas isso é conversa de botas batidas!
    E então aquele mesmo silêncio só silêncio de clichê batido ou de verdade preguiçosa. É que todos vivem e todos estamos vivos. A vida é, portanto, uma verdade batida, ou um clichê preguiçoso.

quarta-feira, setembro 14, 2011

ALTRUÍSMO PENSADO, NECESSIDADE COMEDIDA


  Enxergar-se nos olhos dos outros é mesmo difícil. E sobretudo quando há traves, ciscos e lentes de contato.
 Algumas pessoas passam, param, pedem. Olham-se com olhos que precisam, falam-me com palavras outras, nas quais figuram acreditar.
  Algumas vezes eu passo, nem paro, tampouco reflito. Depois lembro que aqueles olhos aflitos poderiam ser meus, e que também digo palavras fáceis de mentiras convenientemente prontas...
  Estou certo de que a necessidade faz a ação. Mas o pensamento é que projeta a consequência.
  E são os olhos certos que se entendem - a certeza é eterna.

domingo, agosto 21, 2011

DAS COISAS


    
 
   Existem coisas que se explicam naturalmente; seus diversos significados de fato muito poéticos, encarregam-se de dispensar qualquer palavra. E há quem diga que são essas coisas de mil significados que falam mais que mil palavras juntas ou desconexas, artísticas ou não.
   
     Mas existem coisas que necessitam de entrelinhas claras. Para estas qualquer palavra é pouco, porque qualquer palavra fala delas um pouco. Estas não foram nem são entendidas - por quem lê, quem ignora e quem escreve.
     
      E caso me perguntassem o que é mais importante: os universos que escondem situações ou as situações que escondem universos, minha resposta seria ∞/2.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Então veja você mesmo


  A mesma faca que sangra é a que corta e divide o pão. Chora-se de emoção ou de dor, porém, veja: é a mesma lágrima! A ciência cura e mata de uma só vez, protegida por uma única face. Mas, olhe: entre isto e aquilo existem escolhas. E veja o mundo como está!
  Só então veja você mesmo. Decida-se, aventure-se em viver, existir e escolher. Corte sempre o pão, chore o quanto tiver de chorar e cure o que tiver que ser curado. Então olhe para você mais uma vez e estranhe-se.
  Viver é ser capaz de eclodir e implodir constantemente. Entre o inspirar e o expirar está qualquer coisa - e qualquer coisa é mesmo muito.
  Perceba: pão repartido já é pão multiplicado, qualquer lágrima é dádiva para qualquer coisa, e a cura para todos os males é respirar a garantia de que todos respirem. E garanta a pacificidade de um sorriso em qualquer boca.
  Então seja você mesmo.

sábado, agosto 13, 2011

QUATRO OLHOS - final


Nenhum amor de bolso é decisivo. E nenhum amor desesperado acontece de fato.

Verdade seja dita: Simplicidade era, para o Calendário, um amor líquido, de bolso. Daqueles que derretem ainda mais quando faz sol, e escorrem como suor pelo corpo quente... Vocês não sabem o quanto é difícil guardar as coisas simples.  E os bolsos furam.

Do mesmo modo, e de um modo diferente, o Calendário era, para a Simplicade, um amor pulsante, ideal, antigo. Bem se sabe, platonismos e exageros não acontecem  porque se tornam o que há de mais importante na vida. A própria vida, então, se encarrega de que não aconteçam senão no mundo ideias.

Mesmo assim, o amor, sem predicativos, aconteceu mais uma vez entre os jovens.  Ela estava de férias na casa do Calendário em Pequenograndópoles. Os dois se divertiam sempre que possível. Lavavam a louça juntos, passeavam e compravam pão. Coisa de primos ou irmãos -duas coisas que quase não eram.
Simplicidade, que achava aquilo tudo fantástico demais, não hesitou em dizer sim quando o Calendário lhe chamou para ir ao cinema.

E os dois foram como duas folhas que se deixam carregar uma pela outra em meio ao vento. Lembraram, com muito pudor, dos beijos que de quatro olhos deram.
- Você, logo depois que foi embora, começou a namorar com aquela menina...
- Mentira!
-Foi sim. E o que mais me doeu foi saber que você tinha ido sem me dar um beijo de mais nunca.
Calendário tinha pavor de mais nuncas, como todo ser vivo que se preze.  Mas naquele mesmo dia, durante o filme, eles deram mais um beijo, sem nenhum olho. Apenas dois que logo se abriram.

Simplicidade voltou para sua terra, e durante um mês mais ou menos cobrou as fotos da viagem ao menino. Mas calendário era um ser vivo, apenas, e colocava todos os empecilhos possíveis para olhar em profundidade para o que quer que fosse. Pensou que revelar as fotos lhe tomaria muito tempo, e quando tentou o computador estava quebrado. É verdade que isso não é desculpa, mas ele era só um ser vivo. Tecnologia é para as máquinas.

Os dois então se encontraram mais uma outra vez em uma festinha de bairro. Ele com dor de cabeça, ela muito bonita.

Mas foi na véspera de um carnaval, com uma orquestra de frevo, que os dois se viram para mais nunca. Ela estava estranha, ele namorando outra.

Poderia dizer que ela sorriu e o abraçou, depois quis passear com outro homem perto do menino, mas não seria de todo verdadeiro. 

Acontece que meses depois, uma série de mentiras encontraram o Calendário em uma certa tarde.A primeira notícia foi: Simplicidade estava muito mal, hospitalizada. A segunda tratava da gravidade do seu estado. A causa ninguém sabia, mas as horas eram poucas.

A primeira verdade, ainda eufêmica, foi noturna. Ela estava morta desde a noite anterior. Foi morta e pronto. Os detalhes são tantos e tão controversos. São tantos e tão poucos. Carecem de provas porque Simplicidade carecia de dinheiro e de influencias. Alguns dizem que ela sofreu abuso, e que de um tiro só, a poucos metros de casa, foi morta. Sem gritos, sem nada.

Que céu é esse que agora é vermelho? Que mundo é esse em que os anjos são mortos dentro das próprias nuvens?

As lágrimas dele são hoje mais salgadas. Dizem que um pacote de fotografias foi encontrado em uma lápide de azulejos desiguais que não tem nome, nem foto, só um endereço: mais uma entre tantas, misturadas, no cemitério dos que carecem. E padecem. Apenas.

terça-feira, julho 26, 2011

É DE AMOR E DE PAZ QUE VIVE O HOMEM


Vez ou outra, com cada sorriso rápido que recebo, percebo e aprendo um significado universal e único. E todos os olhares sinceros me ensinam que não há nada mais nobre que o ato de se doar; de se entregar ao vento das próprias necessidades e de se unir também às necessidades que não me pertencem.

Não há nada mais nobre do que compartilhar as necessidades, como se todas fossem suas, e todas uma. Com um só desejo que é o espírito satisfeito.

Depois de tudo o que vi e ouvi por esses dias, eu amo todos os sorrisos como se fossem meus; amo toda a fome, como se já não tivesse saciado o meu estômago; amo todas as cáries, e por isso sou flúor; amo todas as lágrimas como se fossem cachoeiras e todas as sirenes como se fossem sinfonias.

Em alguma ladeira, com algum sorriso, iluminado por qualquer hora, alguém me ensinou que devo amar qualquer pessoa, porque em cada uma reside escondido a beleza infinita do Jesus abandonado.

segunda-feira, julho 18, 2011

A arte de traduzir-se em foto


Eu quero o olhar minucioso do fotógrafo. Aquele que calcula os ângulos, mede a luminosidade e em um clique certo, sob um foco certo, capta um segundo de beleza. Aquele mesmo que os olhos nus registram, mas que se perde em qualquer espaço entre a retina e o nervo óptico.

O olhar do fotógrafo revela o que o leigo não vê. Imprime sentimento e coisas mínimas em minimalismos sentimentais.

E uma foto tirada é um novo mundo criado. É quase um recorte, ou uma colagem de frases de opinião.

Mas se tivesse fotografia nos olhos, olharia somente para as pessoas. Então recortaria seus sorrisos e criaria mundos com os seus olhos. E todas em preto-e-branco como nuvens em céu nublado.

segunda-feira, julho 11, 2011

1+ 1 pode não ser dois




Sonho + Sonho continua sendo sonho, apenas. E as pessoas não se somam – misturam-se quando entrelaçam os dedos das mãos.

Aquilo que só existe no campo das idéias está fadado a morrer no primeiro suspiro. Para estar vivo é preciso que se queira com todas as forças, o resto é bobagem astrológica.

Não digo, porém, que é impossível ser dois. Mas difícil mesmo é 1+1 ser um só. Ai sim existe infinito, trilhares de algarismos, universo de possibilidades e pensamentos que não se escrevem.

quinta-feira, junho 30, 2011

E POR FALAR EM DRUMMOND


Dia desses perguntaram-me: “Se pudesse ser qualquer pessoa, viva ou morta, quem seria?” E eu respondi. Não digo que foi no calor do momento porque estava chovendo e aqui no Nordeste quando chove as pessoas sentem frio. Também não foi nenhuma surpresa, dado a freqüência com que perguntas desse tipo são feitas... Surpreendeu-me a minha resposta!

Quem eu queria ser? Muito fácil! Eu queria ser aquele moleque frustrado com o sorvete de abacaxi, que mais parecia uma sombra gelada de qualquer outra fruta que havia sido madura a mais ou menos três anos atrás.

Eu seria aquele moço meio torto, quase morto, o gauche da vida. E então teria pedras no meio dos caminhos, Josés para se perguntar as horas, ou simplesmente dizer: “E agora?”. Teria um coração tão grande quanto o mundo ou seria eu Raimundos sem solução!

Poderia então escrever “Moça, flor, email” e nunca ser tão óbvio ou finitamente preso, em finais de ponto e vírgula. Se pudesse ser, quem eu seria? O Carlos. Não precisava nem ser Drummond de Andrade.

E pensando bem, eu já sou gauche, sou meio torto, sou quase morto, mas sou Gustavo. Será que precisa ser Nunes Monteiro?

segunda-feira, junho 27, 2011

LIBERDADE E OUTROS VÍCIOS


Desconfio de que esteja reforçando o meu lado subjetivo a cada letra que por aqui se escreve. Desconfio também de que quebro assim todas as regras ou diretrizes que supostamente eu deveria seguir; livros dizem: “Objetividade é essencial” – mas está longe de ser essência.

Acostumei-me eu a ser fragrância, desconsiderando todos os elementos químicos que meticulosamente deveriam ser combinados. Perfumes feitos fedem. E também fedem os seres humanos, burgueses ou não. Apenas fui sendo fragrância pela livre intuição, essencialmente subjetiva e quase enigmática – eufemismo para quase nunca entendida.

Desconsiderei, portanto, que assim como o poder deve ser controlado pelo poder, a liberdade deve ser controlada por aquilo que é verdadeiramente livre: a própria liberdade, dom do Espírito, e só ela. Sou livre para mentir pensamentos, mas não posso deixar de assim proclamá-los. Eu minto verdadeiramente, depois minto que não era verdade, para depois mentir que me esqueci das mentiras e das verdades inteiras.

E os sentimentos, as idéias e as pessoas são passíveis de recriação, que também é uma forma de mentira. Criar, recriar, mentir, descobrir é ser livre. E objetividade ou subjetividade é uma questão dicotômica demais para toda essa liberdade que agora percebo. E eu confesso que detesto a falsa simplicidade das coisas dicotômicas ou a bipolaridade das pessoas simplistas – que melhor seriam descritas se fossem descobertas todas as suas inseguranças, que nada mais são do que suspiros sem liberdade.

Penso que o que falo pouco ou muito pouco é de interesse geral da nação, mas acho que tanto a insegurança das pessoas quanto as questões – só – dialéticas são apenas formas de controlar o incontrolável: os possíveis desdobramentos, também chamados de conseqüências ou bilhetes do destino. Os bilhetes, as pessoas e os pensamentos devem ser livres, por essência.

E a essência livre é o mais puro dos perfumes.

segunda-feira, junho 06, 2011

MEUS DIAS LINDOS (Porque Drummond, filho de uma mãe, já escreveu os dias lindos sem possessividade)



Tem dias que eu acordo e vejo notas musicais penduradas nas núvens. São dias realmentente muito lindos! É como se todos os olhares fossem metade bom dia, metade tranquilidade. E o remelexo quase bruto do ônibus, uma dança cósmica de batimentos cardíacos propagados pelos sete universos. As mãos que me pedem esmola parecem plumas, e quase dá para sentir o sorriso dos dedos para cada centavo que tilinta quando é fortemente agarrado.

É nesses dias que as piadas são absurdamente engraçadas – E mesmo as coisas mais sérias. É quando o riso não é transgressor, nem progressista, porque antes de ser riso é sorriso, identificação, juventude. Nos dias de notas musicais fáceis, a identidade é tão completa que nem a dúvida duvida. E os pássaros também cantam sorte em todos os fios elétricos da cidade. E se chove é uma sinfonia sintonizada de pessoas que compartilham guarda-chuvas.

Mas, se me pergunta, no fim desses dias o que eu ganho? Sono, oras! Dias lindos não se acumulam. E só são lindos porque passam, quase que simplesmente...

quinta-feira, maio 26, 2011

Contraindicado para os que não lêem seres humanos



Se existem pessoas diferentes é porque existem diferenças. E elas são simbolicamente anteriores a qualquer indivíduo – que se conheça, pelo menos.

Genética, Biologia, Sociologia, Economia, Bulimia, Anemia, Apatia? Não. As diferenças de caráter excludente são primeiras impressões. E são só isso! Quando se mergulha no outro, as semelhanças se tornam nítidas: mesmos sonhos, mesmos medos, mesmos sorrisos – diferentes ângulos, quem sabe... Clichês à parte, basta enxergar a semelhança “Ser Humano” para metade das diferenças parecerem mínimas, quase imperceptíveis.

É então que, passadas as surpresas do novo, jogar o jogo da relevância se torna necessário. O que é relevante? Beleza, inteligência? Etiqueta, inteligência? Carteira, inteligência? Sobrenome ou inteligência?

Têm coisas que se resolvem com oportunidade. Para outras existe maquiagem! E assim o mundo, cheio de pernas, anda. A “aurora é coletiva”, e “tudo marcha para a arquitetura perfeita”. Pedra ao lado de pedra – são mãos que se balançam.

E se por ti persistirem os olhares tortos, a bula deverá ser consultada. Não aquela de letras miúdas... A que se esconde em qualquer lugar perto do intestino e que grita todos os sentidos e contraindicações de que somos feitos.

terça-feira, maio 24, 2011

É COMPLICADO COMPLICAR-SE


Reprovei na anatomia dos sonhos.
Não sou muito bom em dissecar forma, separar estrutura de sentido, estudar o átomo e esquecer-se das ondas.
Ondas de mar ou de luz também me dizem respeito.
Sou infravermelho, raio-x, tsunami.

Reprovei pelo não entendimento-
Do sonho, do sentido, das minhas próprias vísceras.
Vidas de olhos e de vísceras inteiras ainda me dizem respeito.
Sou espera, promessa, cochilo breve.

E o espelho diz:
Entre as coxias e o palco há um espaço ridículo,
De homens e de olhos tortos sem refletores!

Mas acende-se um fósforo na alma e pronto: sorriso furta-cor.

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segunda-feira, maio 09, 2011

A MORTE DA BEZERRA ME INTERESSA


Nos dias muito claros, de pensamentos e nuvens brancas, qualquer movimento de folhas verdes – ou secas, que sejam – me diz respeito. É quando um cochicho de olhos semiabertos é quase tão real quanto a Teoria da Relatividade... Embora ache que há uma conspiração em cada sussuro.

O que não tem importância é quase tão divertido quanto abrir a boca enquanto se toma um banho de chuva – mesmo que não se beba um só gole d´água. E a morte da bezerra é como a pedra no meio do caminho que foi um dia notada por alguém sem destino. Não a grande pedra. Não aquela pedra. É a pedra chutada, atirada contra o pássaro, esquecida.

A morte da bezerra é a morte para o óbvio.



Obviamente!


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terça-feira, abril 12, 2011

SORRIR É UM ATO COMPLICADO


De uns tempos para cá ser feliz é tão obrigatório... Faz uns anos que o sorriso não é mais só expressão, é também mercadoria, produto – da pasta de dente, do condomíneo de casas, do carro zero kilômetros, do refrigerante vermelho e preto. As pessoas, assim como eu, são empurradas ao ato de sorrir, não importa o quão tristes ou apáticas estejam.

Mas o problema não é sorrir quando não se tem vontade, é sorrir quando se quer sorrir. Com quantos olhos se diferencia os que sorriem mesmo de felicidade? E os que usam óculos, coitados? Janelas da alma com vidro de proteção.

Se pudesse deixar algum aviso à sociedade sorriso de que sorrindo faço parte, diria: profundidade é lei – não importa se tu és riso alegre ou lágrima. Será que a verdade também vende um milhão de cópias?

domingo, abril 10, 2011

QUATRO OLHOS - parte III



Um, dois, três, quatro, cinco, escondiam-se todos e os dois sempre juntos. Um amor de bananeiras, mangueiras e dois meses de risos e promessas tão curtas quanto a vida parecia ser – e era. Final de férias, o calendário voltou para Pequenograndópoles.

E ele era vulnerável, perdia folhas, chegavam outras. Então, reencontrou alguém que não via a seis meses e também se juntaram em beijos de quatro olhos. Mas quando ele voltava às proximidas da terra de leite e mel e via Simplicidade em sua beleza quase infantil de frases gramaticalmente livres, percebia que já nao eram mais um – e que deixaram de ser sem nenhum aviso prévio.

Eles conversavam sobre quase tudo, e depois de dois CDs que o calendário fez questão de entregar à moça, seus tios assumiram que eram dois, heterogeniamente quebrados. Para vê-la então, teria que pedalar até as núvens altas ou mandar um recado via alguém que passeava em carroças de burro. Mas calendário era preguiça, ou amor a outras pétalas agora.

Foi-se um ano, e em Pequenograndópoles, a Rosa Urbana – de sobrenome, sim senhor – com quem juntava os olhos, estava fora de si desde uns tempos (ou quem sabe era ele, tanto faz!). Encurralou-o. Foi-se um ano. A rosa saiu ferida. O calendário sem algumas páginas. E quando parou o tempo, o Calendário quase parou, não fosse Simplicidade para lembrar-lhe que os dias independem das horas e que ele deveria viver mais de palavras e não apenas dos números. Não raro, o relógio se perdia, sem querer, ou as horas eram trocadas como em mágica nos pulsos do garoto. Ele nao gostava dos números... Ficava mesmo feliz quando liam a parte de trás de todas as suas folhas. O seu lado B. Simpatias, dias de santo e de trabalhador para alguns, um pouco míopes: segredo.

E agora então... Longe de mim querer encurtar a história, exaltar ou diminuir partes. Afinal, trata-se de pessoas! E as pessoas são bastante complicadas. Talvez, por isso, não tenho melhor maneira de mostrar-lhes o que aconteceu, senão com elas, as reticências.

...

Entenda-as porém como um ponto de interrogação, uma icógnita,ou um imenso espaço em branco. Ou melhor, apenas um imenso espaço. Não sei como recomeço, pois. Se fosse eu Clarice , e tivesse todas as folhes de liz do peito voltadas para a inteligência criativa que beira a exentricidade, poderia também começar com uma vírgula. Uma pequena pausa depois de tudo o que foi dito naqueles três pontos alinhados no papel. Mas não a sou.

E como também não sou Cecília poderia utilizar-me das aspas: “O amor é uma saudade constante, sem egoísmo nenhum”. E o calendário já não sabia o que amava, se era ao próprio amor, à saudade constante de trilhares de coisas juntas, ou ao egoísmo que não tinha. Amava sim, mas a sua própria existência. Passara dias sem ar com injeções de datas em suas folhas em branco. Mas era um calendário metalinguístico. Dava ao papel em branco de que era feito, a branquidão que se passava em seu conjunto inteiro.

sexta-feira, março 18, 2011

O panorama, o grito, a identidade


No retroprojetor diversas imagens passam como flashes quase instantâneos e subliminares. Há átomos radioativos que viajam com o vento; o mercúrio sobe e atinge o ponto máximo de um termômetro antigo; a água devora e tritura todo um continente; o limão triturado com águas (mineral e ardente) dentro de um liquidificador de bar; é o cantor que protesta, a artista que se despe, a Monalisa que chora.

E então o grito que grita de uma garganta negra; a pele negra ensaguentada; a pele ensaguentada no mercado; tem poeira na América Central e placas tectônicas; tem secadores e ar condicionados; mas há um ventilador e moscas. E há um rio que seca, e há um rio de bochecha e sal. Pílulas, pílulas, xarope. armas, pneus.

Milhares de pessoas espremidas; metrô, cadeia, fila para fila (de comida, de cinema, hospital). Livros e mais livros: traças. Downloads. Dinheiro. Praia. Olho multicolor; foto 3x4.

E os olhos da plateia como vagalumes tontos ao meio-dia. Mas o que é que eu penso agora? Alguém viu minha carteirinha?

quarta-feira, março 16, 2011

EU AMO NÓS: AS PALAVRAS E AS LETRAS


Mas já que se há de escrever
Que ao menos não se esqueça das inspirações involuntárias ou provocadas;
Quando se pensa em ar e pulmão,
Em vida, em palavra e poesia,
Que ao menos não se oprima com as palavras
As opiniões cotidianas
Que são peito, garra e verdade!
Relatividas, relativididas;
Conhecimento ou desconhecimento
A quem muitos chamam ignorância.

Que ao menos o que se há de escrever seja digno de ser dito, numa prisão que é um verso, ou na liberdade que é a falta de pontuação. Que se escreva sobre os meteoros e cometas do espaço que caem na inércia do tempo, ou de nós mesmos que movimentamos o tempo e a própria vida. Mas que antes de tudo se escreva. Nem que seja sobre o que escrever já que se há de escrever.

E que antes de tudo se escreva
A si mesmo,
Assim mesmo.
Escrevo – logo existo.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

QUATRO OLHOS - parte II


E nesse mundo cubículo em que os dias são instantâneos tal qual Doril ou benegripe, é comum que reine o tédio de fazer trilhões de coisas ao mesmo pequeno espaço de um segundo. São milhares e tão poucas! Tão poucas, tão nada...

Mas existem espaços que transcendem os 360º do relógio. Existem lugares em que há tantas coisas e pode-se contemplá-las em um único fechar de cílios sem que se perca qualquer detalhe. E mesmo assim, nesses lugares também reina o tédio em determinadas épocas. São tantas coisas e tão milhares! Tão tantas, tão tudo...

E naquele quintal de várias coisas o tédio vinha constantemente tentar cortar a cerca de arame farpado que cercava o imenso pomar de mangas fumegantes como estrelas caídas no chão de folha seca. O jovem sem nome, ainda, às vezes segurava dois ou tres arames para que a passagem do sujeito fosse mais fácil. Afinal, não se deve deprezar nenhuma companhia. E o tédio de vez em quando vai bem a calhar- Não sabe jogar xadrez, é verdade. Mas quem disse que o menino sabia?

E as rodas da bicicleta rodavam e ele perdia partes. Até que chegou a alegria em forma de recado: Simplicidade viera vê-lo, estava na igrejinha.

E na praça, no meio da missa quase uma premissa de história mal compreendida: Um diálogo (que vagamente será representado).
-Calendário, soube que foi na minha casa!
Sim, calendário. Este era seu nome, que não poderia ser dito por outra pessoa senão ela.
-Fui sim, mas você não estava lá. Aquela era sua vó?
-Era. Ela disse que ficou tão nervosa que entregou a minha toalha de banho para você enxugar as mãos sem querer.
Simplicidade estava bonita. Cabelos grandes de um loiro metálico bruto, natural; sardas que desapareciam; batom muito ralo e brilhoso nos lábios.

E foram tantos risos... Um fotógrafo que passava na festinha santa de cordões de luz tirou uma foto dos dois em um banco de cimento, e depois cobrou muito caro por duas 3 por 4: uma para cada um, como fez questão a moça de sorriso largo.

Quem diria: um Calendário e a Simplicidade. Só saem juntos em foto porque estavam ali , no canto em que havia muitas coisas de muitos detalhes e dava para sentí-los de um em um de uma só vez.

Ela, então, ficaria hospedada na casa vizinha até quando desse. O casal que morava ali brigava muito, estavam prestes a separar as escovas, as distancias e os órgãos sexuais. A mulher era tia dela, o marido era tio dele. E mesmo assim não eram primos.

E quando as noites chegavam e podia-se andar pelas estradas só os dois rumo à casa de algum parente, as conversas eram nostálgicas e esperançosas; o futuro era concreto em todas aquelas constelações de vagalumes que se misturavam às estrelas.

A simplicidade e o calendário no meio daquilo tudo, sentiam-se sós de um jeito único...

Mas foi de repente que o calendário com a praticidade de quem conta os dias deixou-a vermelha por uma pergunta escapada de um meio sorriso daqueles que mexem um só lado do rosto (o esquerdo).
-Já beijou algum lábio, Simplidade?
-(Silêncio)
-(Constelação)
-(As várias coisas que minavam em ambas as mentes)
-Nunca!

E naquela mesma noite os lábios se tocaram e quatro olhos voltaram-se para dentro, para a parte interior que abriga a calma. E eram tudo: pernas, olhos castanhos com verdes abrasileirados, eram braços unidos, eram tronco com tronco, eram árvore, eram alma - no singular como se ama. É de bom tom advertir, porém, que o calendário já havia beijado outros beijos, até mais longos que este. Mas em sonho descobriu que foi o primeiro em que seus olhos eram quatro de uma só vez e que suas mais profundas entranhas eram outras entranhas assim compartilhadas.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Novas sempre surpresas


-Professor, já tomou suco de televisão?
O homem, surpreso com a pergunta, ergueu bem as sobrancelhas, arregalou os olhos e iclinou levemente um lado da cabeça para trás. É verdade, não esperava nenhuma pergunta inteligente, ou algo que acrescentasse conhecimento no desenvolver de uma discussão quando o aluno levantou o dedo. Mas, como suco de televisão? Suco de tomate já é de se estranhar, quanto mais parafusos, fios e botões com água e açúcar...
O menino, então, ao perceber que não obteria resposta diante do constrangimento do professor em frente a trinta pré-adolescentes, disse:
-Não, o suco que eu tô falando é daqueles tipo Tang, que agora tem espuma, Frisco, que o Agostinho bebe e fala trocadilhos, o novo Maratá que a Ivete aprova... Qual desses cê prefere?
É. A juventude se recicla, iventa novos termos, os substituem de dois em dois meses, criam novas modas, ressuscitam outras de 60 anos atrás, sorriem e fazem amigos: Novas sempre verdades!
Qual experiência ou sabedoria consegue ganhar de juventude, coragem e um pouco de maluquice lúcida?

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Perdendo dentes*


Existem vários pensamentos memoráveis e inapropriados para qualquer timbre ou tímpano. Muitos deles começam com o clássico "eu queria". Dentro destes estão: aqueles que são antecedidos pela palavra "mas", os que, entre vírgulas, têm "então", e aqueles que terminam com a enigmática e óbvia interrogação - o resto são variações da mesma pergunta.
Mas então, o que eu queria?
Talvez ser a máquina odontológica que perfura o dente, em rotações inimagináveis por minuto. Perfurar, descobrir, e evitar que se perca dentes.
É dor, ferro, engenho, frio? talvez.
É meio, caminho, interior, profundidade.

ANACOLUTO


As coisas mais interessantes não fazem o menor sentido.(..)
Essa frase não é de ninguém. Nenhum cineastra famoso deixou a pérola escapar no meio de uma entrevista; nenhum poeta morto-vivo a escreveu no rodapé de uma receita de bolo.
Mas na verdade, na verdade... Ah, o que importa?

quinta-feira, janeiro 20, 2011

DAS COISAS IMPOSSIVEIS – Sem paranóia nem mistificação


Tenho 17 anos, duas irmãs, uma camisa do Bob Esponja e um futuro.
Meu futuro é quase incerto, mas faz tempo que é sempre o mesmo e há quem lhe atribua diversos adjetivos tais quais utópico e todos os seus eufemismos possíveis que são como suco de maracujá do MacDonnald´s – cada vez mais diluído em água.
Se tenho um futuro sonhador, amigos, daqueles que quase se assemelham aos sonhos impossíveis, é porque tenho propósito, que nada mais é do que sonho racionalizado, fantasia que se põe na balança.
Futuro? Que é futuro senão o desdobramento do presente?
O que há depois da pedra no caminho não é Drummond quem me diz, é o Quintana e sua utopia que antes de ser impossível é necessária para o próprio caminhar.
Tenho 17 anos e chegou o tempo em que a terceira escolha é como o terceiro olho de São Boaventura e vai muito mais além do que é tátil. É a pedra, o sedimento e o rio.
E a minha terceira escolha é tranqüilidade e quem sabe assinar uma coluna de alguma revista de circulação. Até lá, ainda terei 17 anos, duas irmãs, uma camisa do Bob Esponja e o meu futuro certo, imóvel, via lácteo)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

LEIA-ME


Todas as vezes em que meus olhos se adentram em própria órbita, e todas as vezes que assopro a poeira dos vasos sanguíneos, penso: cadê o eu que estava aqui? O tempo comeu e foi por aqui, foi por aqui, foi por aqui, foi por aqui: Me encontro no fio de cabelo estragado ou na unha que não cresce do dedo mindinho.
E cadê o meu versículo que estava aqui? É como água que com muito esforço vira qualquer coisa a depender das minhas vírgulas esquecidas.
E então, “quem sabe um dia?”
Mas se esse verso não é meu, quem sabe um agora? E se esse tempo ainda não é meu, quem sabe o seu agora? E se essa vida não é minha, quem sabe um tempo em que a vida não era uma só vida, mas vida em conjunto?
Quem sabe ler o que não se escreve primeiro, o que não se pensa depois (mas bem em seguida)? Quem sabe ler, apenas, até o que não está escrito em nada senão em si mesmo? Quem sabe ouvir primeiro, ouvir depois; certamente saberá a hora de falar primeiro, calar-se ou fazer calar depois.
Quem sabe ler-se primeiro, bula de remédio depois, saberá calar-se ou fazer calar primeiro; falar depois ou nunca.
Quem sabe eu repita o que já disse, ou quem sabe não me leia nem antes, nem depois, nem agora. (O sujeito dessa frase pode ser eu ou você, como queira a retina).(Ou quem sabe o eu ou o você seja a mesma coisa, como queira a sinapse inicial).